Eu durmo tarde. Quero dizer cedo. Adoro as madrugadas. É normal para mim dormir depois do sol nascer. Relativamente comum. Costumo ficar deitado vendo filmes até pegar no sono, por vezes até escrevendo ou fazendo outras coisas desse tipo. Um dia desses, quero dizer, uma noite dessas, me levantei para beber um pouco de água. Muita pipoca, estava com sede. Ao abrir a porta do quarto me deparei com uma sombra com rabinho correndo pra trás do fogão. A porta da cozinha estava aberta, e acho que enquanto eu olhava de um lado do fogão, a sombra fugiu pelo outro. Mas eu sabia o que era. Era um rato. Já faz alguns dias havíamos percebido um rato morando no esgoto do nosso prédio. O sacana era abusado, e às noites ele saía pra passear pelo térreo, e por vezes até subia a escada pro segundo andar. No começo era até divertida a gritaria quando alguma damisela desavisada e incauta topava com o terrível roedor. Mas agora era diferente, ele tinha entrado na minha casa, eu não entrava na dele, e ele tinha entrado na minha casa. Certifiquei-me de que ele realmente tinha ido embora, fechei a porta e coloquei um pano no vão entre ela e o chão. No dia seguinte encontrei o pano deslocado. Mas não inteiramente, como se alguém tivesse aberto a porta, mas apenas a ponta dele, evidenciando que o desgraçado tinha entrado pra fazer das suas. Havia uma panela com óleo velho de fritura semi-entornada, uma sujeira danada no chão, e um cheiro forte de urina. Puxei o fogão de lado e confirmei o que eu já sabia. Estava cheio de cocozinhos por todo lugar. Frente à inutilidade do pano, encaixei um pedaço de pau na soleira da porta da cozinha, e do meu quarto também, já antevendo a possibilidade dele entrar em algum momento em que a porta estivesse aberta, como é de costume. O pedaço de pau não era exatamente perfeito para a função, pois tinha algumas reentrâncias, e como é sabido, ratos se espremem por qualquer lugar. Coloquei então o tal pano também, para me certificar de que ele não entrasse. Falei com a administração sobre o caso, pedi q fizessem uma desratização, e, um pouco por protesto, um pouco por piada (sim, eu ainda conseguia rir com a situação), desenhei um Mickey dentro de um círculo vermelho com uma tarja por cima, e preguei do lado da porta. Sendo os ratos inteligentes como dizem que eles são, imaginei que o bastardinho entenderia o significado da coisa. Proibida a entrada de ratos. Mas ele não entendeu. Encontrei novamente o pano deslocado na manhã seguinte. Não sabia mais o que fazer, e não havia esquecido nem um pouco as lições de minha mãe. Sem falar que o miserável começava a me deixar seriamente irritado. Ele não roia nada, não comia nada. Só entrava, cagava, mijava e ia embora. Eu não fazia isso na casa dele, então porque ele fazia na minha? Foi então que eu tive uma idéia. Muito simples na verdade, mas provou se efetiva. Prendi as duas pontas do pano na própria porta, de modo a que se ela estivesse fechada, não fosse possível empurrar o pano. Por alguns dias, e noites, tive paz. Não encontrei mais sinais de que ele pudesse estar nos visitando durante as madrugadas. Pude enfim, dormir sossegado e esperar a tal desratização.
O que nos leva ao dia de hoje. Ou melhor, à madrugada de hoje. Lá pelas cinco da manhã, após assistir alguns filmes, decidi dormir. Tão logo comecei a ajeitar minha cama, escutei barulhos na cozinha. Tão altos que imaginei que o meu colega do outro quarto pudesse estar acordado, preparando alguma coisa, sendo ele quase tão madrugador quanto eu mesmo. Mas os sons pareciam erráticos, sem ritmo. Não pareciam com o ruído que alguém cozinhando ou lavando louça ou fazendo qualquer atividade típica da cozinha pudesse fazer. Lá dentro, bem no fundo, sabia que era ele. Abri a porta, peguei um pedaço de pau que havia deixado preparado especialmente para essa ocasião, e olhei pra cozinha. Subindo pela mangueira amarela do gás, lá estava ele, com seu rabo comprido e sua pelagem cinza. Numa fração de segundo, ele estava lá e logo tinha se enfiado dentro do forno. Olhei para a porta, vi o pano todo bagunçado num canto. Alguém tinha entrado e não tinha se preocupado em colocá-lo de volta. Sabia, era ele mesmo, e não me daria paz. Enquanto ele vivesse, eu sabia que estaria irremediavelmente preso à paranóia de lavar cada talher ou louça que fosse usar, antes de usar, mesmo que já estivesse limpo. De nunca poder apoiar nenhum alimento em nenhuma superfície, porque eu nunca saberia se ela estava limpa ou se ele tinha passeado por ali naquela noite. Todas as palavras da minha mãe ecoaram em minha cabeça. As doenças. Todas elas. O imaginário sobre eles. Tudo. Não tinha escolha. Era eu, ou ele. Tinha que matá-lo. Como meus antepassados, segurei com firmeza aquele pedaço de pau, aquela arma, e esperei. Fiquei em silêncio, esperando ele sair para triturar seus miolos, mas ele não saiu. Mexi um pouco o fogão com a ponta do pau, e senti ele fazer barulho dentro. Abri um pouquinho a porta do forno e soltei, e novamente ele se agitou lá dentro.
Foi aí que eu comecei a perder o controle. A figura do hominídeo com tacape se insinuava na minha mente inconscientemente. Acariciei o pedaço de madeira na minha mão e comecei a desferir golpes nas laterais do fogão, mas o dentuço não saia. Cantarolei canções de escárnio e fiz provocações baratas, mas ele não saiu. Penso agora que provavelmente ele estava com medo, mas no momento só conseguia imaginar que ele estava me sacaneando. Peguei um palito de fósforo. Se o tacape não resolvia meus problemas, talvez um dos mais antigos aliados do homem resolvesse. Acendi o forno. O fogo ia expulsar o danado de lá, mais cedo ou mais tarde. O ódio ardia nos meus olhos, bombeava sangue pra todo meu corpo, a adrenalina me mantinha atento, e eu permanecia ali, de prontidão, como um felino pronto pra pular sobre sua presa. Sentei-me calmamente e esperei. O fogo ia fazer o serviço. Se ele não saísse, morreria assado. Não demorou muito, mas pareceram horas, e ele pôs o focinho pra fora, investigando o cenário me viu, me encarou por com seu pequeno grande olho preto arregalado, e se escondeu novamente. Não tive tempo de nada, mas a cena do crânio rachado passou pela minha cabeça. Esperei mais um pouco, e ele não agüentou. Saiu se dirigiu até a porta correndo, sob uma chuva de cacetadas, percebeu que ela estava fechada, deu meia volta e correu pro outro lado, pra pequena área de serviço que tem no final da cozinha. Ele era rápido, devo admitir, e apesar da minha prontidão, me pegou de surpresa. Meus reflexos não são os melhores as seis da manhã. Se escondeu atrás do tanque, onde não tinha como atingi-lo. Fiquei espezinhando seu rabo pra ver se ele saía. Saiu. Correu, driblou, passou no meio das pernas e correu pra porta de novo. Ele podia ser rápido, mas não era assim muito esperto. Fui atrás dele, tentei novamente acertá-lo mas ele se desviava correndo em minha direção, e eu não queria acertar meus próprios pés. Voltou pra trás do tanque. Eu estava ofegante. O coração disparado bombeava sangue pro meu cérebro e meus músculos. Os pulmões se contorciam para manter esse sangue o mais oxigenado possível. Uma fúria cega tomava conta de mim. Eu arfava, rosnava, grunhia, como um homem das cavernas, um cão selvagem. Mostrava os dentes. Foi então que percebi o sangue. Haviam manchas vermelhas, vivas muito fortes, como rubis, na parede de azulejos. Olhei o chão ensangüentado e percebi. Definitivamente, ele estava ferido. Um sorriso se formou na minha boca. Espezinhei o atrás do tanque e ele fugiu, novamente, repetiu o processo, me driblou e correu pra porta. Fui atrás dele e se escondeu atrás do fogão. Acertei-lhe uma bordoada no costado, e o pequeno demônio se escondeu embaixo da geladeira. Sacudi-a pra lá e pra cá mas ele permaneceu lá. De vez em quando botava sua fucinha pra fora e me olhava com terror. Eu agora era o senhor da guerra, um guerreiro viking em frenesi, a própria reificação da morte. Ele tentou fugir subindo por trás da geladeira. Eu o vi. Enquanto ele, já desorientado e confuso, decidia o que fazer, eu levantei meu braço e desferi o golpe certeiro. Ele caiu no chão e ficou deitado de lado, me olhando com seus olhos pretos. Lembrei-me das malditas baratas, e de como elas fingiam a própria morte para escaparem depois. Ele não parecia tão ferido. Estava deitado, imóvel, de lado, mas ainda não estava morto. Ergui o tacape e destrocei sua cabeça. Um olho deixou de existir, e o outro saltou fora do outro lado. Eu nasci homem, ele nasceu rato. E agora ele ficou ali, morto.
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sexta-feira, 7 de agosto de 2009
segunda-feira, 18 de maio de 2009
O farol (Inverno)
Olhou o prato vazio mais uma vez. Com um pedacinho de pão, enxugou um último resto da sopa. Tirou a água do fogo e se serviu um chá. Lá fora o vento soprava com violência audível, e os lobos uivavam ao longe. Apesar da janela estar completamente coberta pela neve, podia sentir que a nevasca passara. Deu duas pancadinhas com o nó dos dedos nos grossos vidros da janela, o suficiente para a fina camada de neve se desprender. Mais um pequeno tranco no batente, e já se podia enxergar a branca paisagem lá fora. Como ele imaginava, o farol apagara. Entrou no vestíbulo, vestiu apressado o grosso colete de lã, e o casaco por cima de tudo. Colocou o gorro e se enrolou no cachecol. Amarrou firmemente a touca do casaco, enfiou-se nas luvas e abriu a porta. Agora o vento uivava nele. Sentiu um calafrio na espinha, e afundou as grossas botas até quase o joelho na neve. Deu mais alguns passos, e antes de começar a amaldiçoar seu destino, decidiu pensar positivo. Graças a Deus, pensou, acabei de jantar, tomei meu chá e estou quente o suficiente, e com energia para ir até o farol cumprir meu dever.
O farol ficava a uns cinqüenta metros da cabana. Cinqüenta metros forrados de neve, açoitados por um vento que fazia com que parecessem quilômetros. Percorreu cada passo da ida com um pensamento feliz, lembrando seu pai e como ele falava com tanto orgulho da profissão da família. Seu coração batia feliz, apesar do vento. O pensamento em seu pai sempre o alegrava, mesmo nas horas mais tristes. Praticamente se arrastando devido ao vento, finalmente chegou a torre do farol. Devia ter seus trinta metros de altura, pura pedra empilhada. No topo estava o farol, que alumiava as perigosas águas do cabo para os navegantes. Subiu os primeiros degraus agarrando-se aos restos de corrimão que ainda resistiam presos à pedra. Era uma escadaria em espiral que serpenteava em torno da torre. Alguns degraus estavam meio soltos, fazendo com que a subida fosse em alguns pontos uma verdadeira escalada. Faltavam algumas horas para amanhecer, talvez não fizesse falta se não o acendesse. Havia subido uns quatro metros quando escorregou. Por sorte, a nevasca que caíra a pouco tinha forrado o chão com uma neve fofa, que ainda não endurecera. Foi o que o salvou. Sentiu o pé faltar com o apoio, e instintivamente se agarrou ao velho e desgastado corrimão, que não agüentou seu peso e se desprendeu da parede. Caiu como um peso morto, e sentiu cada centímetro passando como uma eternidade. Olhou pros céus, negros como a asa do corvo, e fechou os olhos. Sentiu-se afundar num colchão gelado e úmido, enquanto atravessava a camada de neve que o separava do chão, e de repente não soube mais nada.
Acordou com o apito grave da buzina do navio. Ergueu-se rapidamente do seu leito gelado e olhou pro mar. Ao longe via-se uma pequena luz de navegação. Sem o farol aquele navio não sobreviveria. Ficou de pé, apenas pra sentir uma dor enorme no tornozelo. Provavelmente estava quebrado. Se arrastou de volta pra escada e recomeçou a subir. Tentou mais uma vez ficar em pé, mas não conseguiu. Ironicamente, descobriu que subir engatinhando como um bebê era mais fácil do que subir de pé. Foi subindo rapidamente, até chegar na face da torre que era mais castigada pelo vento. Ali as coisas se complicaram. Não tinha como se segurar do corrimão, e o vento o desequilibrava de tal forma que achou que cairia de novo a qualquer instante. Mas aos poucos conseguiu chegar ao topo. O navio soava cada vez mais perto, e muito em breve estaria na zona onde sem um farol o seu destino seria funesto. Arrastou-se até o farol, colocou combustível e acendeu-o. Sentou-se encostado a parede e sorriu. Seu pai estaria orgulhoso se o visse agora. Tinha cumprido sua missão, mesmo nas circunstâncias mais adversas.
Respirou fundo. Tinha agora que preocupar-se em como ia voltar pra cabana. Suas roupas estavam encharcadas da neve, e com esse vento, logo ia congelar se ficasse ao relento. Ironicamente, descobriu que se para subir era mais fácil engatinhar, descer da mesma forma era praticamente impossível. O vento entrava pelas janelas e penetrava nos ossos. Aos poucos ia se sentindo cada vez mais frio. Um tremor passou pela sua pele. Teria que descer de qualquer forma, ou o frio roubaria suas forças e faria impossível a descida. Abriu o casaco e rasgou um pedaço da camisa, com o qual enfaixou o tornozelo, que já inchara bastante, embora não mais doesse. Apertou bem a bota por cima e ficou de pé. Quase não conseguia apoiar o pé no chão, mas deu o primeiro passo. Agarrou-se novamente aos restos do corrimão e recomeçou a descer, sentindo em cada pisada uma punhalada na própria alma. A noite corria célere, e a linha do horizonte já começava a clarear. Depois de muito sofrimento conseguiu chegar ao chão. Mas aqui a neve não permitia que fosse dando pulinhos num pé só. Teria que levantar a perna, apoiar o peso do corpo num pé só, e afundar o outro na neve. E depois repetir tudo com o outro pé. O pé quebrado. Passo após passo. Se a neve estivesse mais sólida, poderia se arrastar por ela, mas com certeza teria quebrado bem mais do que apenas um tornozelo na queda. Se. Palavrinha complicada. Ergueu o pé direito. Afundou o na neve. Sentiu o frio aliviar sua dor, até tocar no chão. Respirou fundo, e apoiou o peso no pé, erguendo a outra perna. Afundou a na neve rapidamente, sentindo as lágrimas secarem no rosto pelo vento. Com alivio, apoiou o peso na perna esquerda, e levantou rapidamente a direita. Deixou o pé afundar lentamente na neve, aliviando sua dor. Apoiou o peso no pé novamente. Lancinantemente, a dor dobrou seu corpo e o derrubou ao chão. Ficou ali, sentindo o frio o invadir, tomar suas forças, vencê-lo. Tentou se arrastar em direção a cabana, mas não tinha mais forças. Fechou os olhos e lembrou-se mais uma vez do pai, da garota de cabelos dourados que o esperava na aldeia. Sentiu o calor do seu sorriso uma ultima vez. Abriu os olhos e deitou-se de costas. Ele dominava toda sua visão do céu. O farol. Com suas pedras centenárias, olhando a costa vigilante, vendo os navios passarem, com suas cargas, seus passageiros e suas tripulações. O farol. Acesso todas as noites do ano, em qualquer estação. O farol. Fechou os olhos. O farol brilhava na escuridão da noite dividindo tudo com seu facho de luz. Abriu os olhos, e num último esforço se ergueu. Seu pai acendera aquele farol todas as noites, antes dele seu avô. E o pai de seu avô antes dele. Agora era sua vez. Enfiou o pé direito na neve, apoiou o peso e levantou a perna esquerda. Repetiu o processo, ignorou as dores, e prosseguiu. A uns metros da cabana não resistiu e tombou de novo, mas já a neve não era tão alta e pode-se arrastar até a porta da cabana. Ergueu-se mais uma vez e entrou na cabana. Antes de deitar, olhou uma última vez pela janela. Lá fora, o dia raiava. E o farol estava acesso. Deitou-se, respirou fundo, e fechou os olhos. Dormiu.
O farol ficava a uns cinqüenta metros da cabana. Cinqüenta metros forrados de neve, açoitados por um vento que fazia com que parecessem quilômetros. Percorreu cada passo da ida com um pensamento feliz, lembrando seu pai e como ele falava com tanto orgulho da profissão da família. Seu coração batia feliz, apesar do vento. O pensamento em seu pai sempre o alegrava, mesmo nas horas mais tristes. Praticamente se arrastando devido ao vento, finalmente chegou a torre do farol. Devia ter seus trinta metros de altura, pura pedra empilhada. No topo estava o farol, que alumiava as perigosas águas do cabo para os navegantes. Subiu os primeiros degraus agarrando-se aos restos de corrimão que ainda resistiam presos à pedra. Era uma escadaria em espiral que serpenteava em torno da torre. Alguns degraus estavam meio soltos, fazendo com que a subida fosse em alguns pontos uma verdadeira escalada. Faltavam algumas horas para amanhecer, talvez não fizesse falta se não o acendesse. Havia subido uns quatro metros quando escorregou. Por sorte, a nevasca que caíra a pouco tinha forrado o chão com uma neve fofa, que ainda não endurecera. Foi o que o salvou. Sentiu o pé faltar com o apoio, e instintivamente se agarrou ao velho e desgastado corrimão, que não agüentou seu peso e se desprendeu da parede. Caiu como um peso morto, e sentiu cada centímetro passando como uma eternidade. Olhou pros céus, negros como a asa do corvo, e fechou os olhos. Sentiu-se afundar num colchão gelado e úmido, enquanto atravessava a camada de neve que o separava do chão, e de repente não soube mais nada.
Acordou com o apito grave da buzina do navio. Ergueu-se rapidamente do seu leito gelado e olhou pro mar. Ao longe via-se uma pequena luz de navegação. Sem o farol aquele navio não sobreviveria. Ficou de pé, apenas pra sentir uma dor enorme no tornozelo. Provavelmente estava quebrado. Se arrastou de volta pra escada e recomeçou a subir. Tentou mais uma vez ficar em pé, mas não conseguiu. Ironicamente, descobriu que subir engatinhando como um bebê era mais fácil do que subir de pé. Foi subindo rapidamente, até chegar na face da torre que era mais castigada pelo vento. Ali as coisas se complicaram. Não tinha como se segurar do corrimão, e o vento o desequilibrava de tal forma que achou que cairia de novo a qualquer instante. Mas aos poucos conseguiu chegar ao topo. O navio soava cada vez mais perto, e muito em breve estaria na zona onde sem um farol o seu destino seria funesto. Arrastou-se até o farol, colocou combustível e acendeu-o. Sentou-se encostado a parede e sorriu. Seu pai estaria orgulhoso se o visse agora. Tinha cumprido sua missão, mesmo nas circunstâncias mais adversas.
Respirou fundo. Tinha agora que preocupar-se em como ia voltar pra cabana. Suas roupas estavam encharcadas da neve, e com esse vento, logo ia congelar se ficasse ao relento. Ironicamente, descobriu que se para subir era mais fácil engatinhar, descer da mesma forma era praticamente impossível. O vento entrava pelas janelas e penetrava nos ossos. Aos poucos ia se sentindo cada vez mais frio. Um tremor passou pela sua pele. Teria que descer de qualquer forma, ou o frio roubaria suas forças e faria impossível a descida. Abriu o casaco e rasgou um pedaço da camisa, com o qual enfaixou o tornozelo, que já inchara bastante, embora não mais doesse. Apertou bem a bota por cima e ficou de pé. Quase não conseguia apoiar o pé no chão, mas deu o primeiro passo. Agarrou-se novamente aos restos do corrimão e recomeçou a descer, sentindo em cada pisada uma punhalada na própria alma. A noite corria célere, e a linha do horizonte já começava a clarear. Depois de muito sofrimento conseguiu chegar ao chão. Mas aqui a neve não permitia que fosse dando pulinhos num pé só. Teria que levantar a perna, apoiar o peso do corpo num pé só, e afundar o outro na neve. E depois repetir tudo com o outro pé. O pé quebrado. Passo após passo. Se a neve estivesse mais sólida, poderia se arrastar por ela, mas com certeza teria quebrado bem mais do que apenas um tornozelo na queda. Se. Palavrinha complicada. Ergueu o pé direito. Afundou o na neve. Sentiu o frio aliviar sua dor, até tocar no chão. Respirou fundo, e apoiou o peso no pé, erguendo a outra perna. Afundou a na neve rapidamente, sentindo as lágrimas secarem no rosto pelo vento. Com alivio, apoiou o peso na perna esquerda, e levantou rapidamente a direita. Deixou o pé afundar lentamente na neve, aliviando sua dor. Apoiou o peso no pé novamente. Lancinantemente, a dor dobrou seu corpo e o derrubou ao chão. Ficou ali, sentindo o frio o invadir, tomar suas forças, vencê-lo. Tentou se arrastar em direção a cabana, mas não tinha mais forças. Fechou os olhos e lembrou-se mais uma vez do pai, da garota de cabelos dourados que o esperava na aldeia. Sentiu o calor do seu sorriso uma ultima vez. Abriu os olhos e deitou-se de costas. Ele dominava toda sua visão do céu. O farol. Com suas pedras centenárias, olhando a costa vigilante, vendo os navios passarem, com suas cargas, seus passageiros e suas tripulações. O farol. Acesso todas as noites do ano, em qualquer estação. O farol. Fechou os olhos. O farol brilhava na escuridão da noite dividindo tudo com seu facho de luz. Abriu os olhos, e num último esforço se ergueu. Seu pai acendera aquele farol todas as noites, antes dele seu avô. E o pai de seu avô antes dele. Agora era sua vez. Enfiou o pé direito na neve, apoiou o peso e levantou a perna esquerda. Repetiu o processo, ignorou as dores, e prosseguiu. A uns metros da cabana não resistiu e tombou de novo, mas já a neve não era tão alta e pode-se arrastar até a porta da cabana. Ergueu-se mais uma vez e entrou na cabana. Antes de deitar, olhou uma última vez pela janela. Lá fora, o dia raiava. E o farol estava acesso. Deitou-se, respirou fundo, e fechou os olhos. Dormiu.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
A chuva e a Rainha Alessandra
A alguns meses não chovia. Era natural que em certas épocas do ano não chovesse uma gota sequer durante um tempo. Mas desta vez a seca estava durando muito. A terra foi secando aos poucos até ficar dura e rachada. Depois começou a se transformar num pó fino que se espalhava por todos os cantos, deixando tudo ligeiramente avermelhado. Por fim, o sol foi aquecendo cada vez mais, e as noites eram quase tão quentes quanto os dias. As pessoas adoeciam, secavam e morriam, de calor, de sede e de fome. Aos poucos, começaram a migrar para regiões mais úmidas, onde não faltasse a água, nem a chuva. Até que a região se tornou praticamente desabitada.
Só ela ficou. Quando o povo, os nobres, os ricos e os miseráveis se tornaram finalmente iguais, e abandonaram a terra para secar ao sol, ela ficou. Jamais abandonaria sua terra, era seu dever permanecer ali até que a chuva voltasse a cair, e a vida voltasse a surgir do pó seco. Caminhava pelo palácio enorme e vazio, e o silêncio reinava absoluto por entre as torres e corredores, arcos e colunas. Nem um pio de pássaro se fazia ouvir, nem um grilo ao anoitecer ou um galo pela manhã. Silêncio e pó seco, esse era seu reino agora.
Reinava uma terra consumida pela seca. Tudo nela agora era seco. Sentia seu corpo seco, sua alma seca, sua vida seca. Sua pele, outrora fresca e viçosa, agora estava ressequida, rachada e envelhecida. Jamais sentira tanta vergonha, tanta impotência. Ela, orgulhosa e bela como a águia que patrulhava os ceús, agora estava diminuída pela secura. Aos poucos ia ficando como o mesmo pó que se impregnava no seu ser, colado suavemente na pele seca. Jamais sentira tanta falta. E com o palácio deserto era ainda pior. As vezes se aventurava pela cidade, entrava nas casas, nas ruelas, nos jardins. Nunca sentira tudo tão seu, nem nunca se sentira tão só.
Seu coração estava agitado. Sentada numa das janelas do palácio, assistia ao mais belo pôr-do-sol que jamais vira. As fortes rajadas de vento que corriam ao fim da tarde, levantavam quantidades enormes de pó na atmosfera, fazendo tudo ficar em inacreditáveis tons de vermelho. Mas toda essa beleza era triste, e ao invés de alegrá-la, fazia com que seu coração batesse angustiado, oprimido pelo peso insuportável da frágil condição humana. Aos poucos, a noite chegou, e com ela a lua, enorme e vermelha como se sangrasse, como se chorasse sangue pela terra arrasada, e seca. Sua claridade foi invadindo tudo, e o pó dançava na sua luz num balé macabro.
Abandonou a janela e deixou que a melancolia guiasse seus passos pelo palácio vazio, completamente iluminado pela lua. Seus pensamentos vagavam intranquilos por lugares que não costumavam visitar. Por fim encontrou-se no meio do pátio interno, onde outrora havia um jardim de beleza incomparável. Viajantes vinham do mundo todo, inclusive das terras de além mar, apenas para contemplá-lo, e agora dele não restava nada, a não ser terra seca e pó fino. Parada ali, no meio do antigo jardim, percebeu finalmente toda a extensão de sua miséria, e se rendeu.
Caiu de joelhos na terra, miserável e seca como ela mesma. Fora outrora orgulhosa e bela, a própria promessa da fertilidade, e agora nada lhe restava. O seu orgulho se fora, bem como as nuvens do céu. Agarrou um punhado de terra entre as mãos e sentiu ela se esfarelar entre seus dedos, se transformar naquele maldito pó fino que cobria tudo. Deixou-o escorrer de volta ao chão, e espalmando as duas mãos sobre o solo ressequido, se entregou. Desistiu por completo de todas suas pretensões, de todo seu orgulho, e chorou. A pele se agarrava àquela lágrima solitária que escorria avermelhada sobre ela, ultimo resquício de umidade que o pó ainda não devorara. Esta, por fim, rolou pelo seu rosto até o queixo, e mergulhou em direção aos braços abertos que a terra seca lhe estendia. Deixou-se cair, como a mesma lágrima, e ali caída alimentou a terra com suas lágrimas até adormecer.
E foi como num sonho que a lua foi se recolhendo entre duas nuvens até desaparecer, e o balé macabro do pó ao luar parou. Ele foi lentamente caindo sobre a terra, como esperando o que estava para acontecer, como o viajante que volta para o lar depois de anos de interminável vagar. A noite foi ficando cada vez mais escuras, e os poucos raios de luz que passavam entre as nuvens foram ficando cada vez menos e menores, até que a escuridão se fez total. E era como se a própria morte houvesse chegado com a suave brisa, escura e silênciosa como pantera. Mas era a vida quem chegava, e se precipitava das nuvens veloz e ansiosa para tomar de volta o que era seu, e se entregar aos seus súditos. Caiu em silêncio, mas não foi em silêncio que entregou suas dádivas. A primeira gota a reclamar a terra como sua o fez com estrondo, bem como suas irmãs, e juntas reclamaram posse de cada beco, ruela e jardim, até chegar ao pálacio.
Desceu dos céus com majestade, e a tomou nos seus braços fortes de tormenta. Com mil beijos suaves a acordou, e para sua delícia, foi molhando cada milímetro de sua pele, cada poro sedento de seus carinhos, percorrendo cada dobra de pele com seu toque gentil. Ela abriu seus braços e se entregou às suas carícias, deixando a água escorrer pelas suas pernas com vigor, e escorregar entre os dedos dos pés em direção à terra sedenta. Ficou ali sentada, sentindo seu toque firme e gentil massagear a sua carne. A água logo encharcou seus cabelos, e escorreu pelo pescoço até o peito. Se aninhou nos seus seios como uma criança, brincou um pouco e deslizou entre eles até o seu umbigo. Ela arrancou o vestido e deixou-se molhar inteira, em cada recôndito de seu corpo sedento. Com as mãos percorria seu corpo, ajudando a alcançar onde ainda não havia sido tocada por seus afagos. Brincaram e dançaram juntos a noite inteira, ali mesmo na terra agora molhada do jardim interno. Não houve pedaço do seu reino que não tivesse sido saciado em sua sede e se até então conhecera o que era a miséria, agora por fim conhecia o gozo, e nunca mais deixou de se entregar a ele, dançando nua no jardim que nunca mais ninguém viu, só ela e a chuva.
Só ela ficou. Quando o povo, os nobres, os ricos e os miseráveis se tornaram finalmente iguais, e abandonaram a terra para secar ao sol, ela ficou. Jamais abandonaria sua terra, era seu dever permanecer ali até que a chuva voltasse a cair, e a vida voltasse a surgir do pó seco. Caminhava pelo palácio enorme e vazio, e o silêncio reinava absoluto por entre as torres e corredores, arcos e colunas. Nem um pio de pássaro se fazia ouvir, nem um grilo ao anoitecer ou um galo pela manhã. Silêncio e pó seco, esse era seu reino agora.
Reinava uma terra consumida pela seca. Tudo nela agora era seco. Sentia seu corpo seco, sua alma seca, sua vida seca. Sua pele, outrora fresca e viçosa, agora estava ressequida, rachada e envelhecida. Jamais sentira tanta vergonha, tanta impotência. Ela, orgulhosa e bela como a águia que patrulhava os ceús, agora estava diminuída pela secura. Aos poucos ia ficando como o mesmo pó que se impregnava no seu ser, colado suavemente na pele seca. Jamais sentira tanta falta. E com o palácio deserto era ainda pior. As vezes se aventurava pela cidade, entrava nas casas, nas ruelas, nos jardins. Nunca sentira tudo tão seu, nem nunca se sentira tão só.
Seu coração estava agitado. Sentada numa das janelas do palácio, assistia ao mais belo pôr-do-sol que jamais vira. As fortes rajadas de vento que corriam ao fim da tarde, levantavam quantidades enormes de pó na atmosfera, fazendo tudo ficar em inacreditáveis tons de vermelho. Mas toda essa beleza era triste, e ao invés de alegrá-la, fazia com que seu coração batesse angustiado, oprimido pelo peso insuportável da frágil condição humana. Aos poucos, a noite chegou, e com ela a lua, enorme e vermelha como se sangrasse, como se chorasse sangue pela terra arrasada, e seca. Sua claridade foi invadindo tudo, e o pó dançava na sua luz num balé macabro.
Abandonou a janela e deixou que a melancolia guiasse seus passos pelo palácio vazio, completamente iluminado pela lua. Seus pensamentos vagavam intranquilos por lugares que não costumavam visitar. Por fim encontrou-se no meio do pátio interno, onde outrora havia um jardim de beleza incomparável. Viajantes vinham do mundo todo, inclusive das terras de além mar, apenas para contemplá-lo, e agora dele não restava nada, a não ser terra seca e pó fino. Parada ali, no meio do antigo jardim, percebeu finalmente toda a extensão de sua miséria, e se rendeu.
Caiu de joelhos na terra, miserável e seca como ela mesma. Fora outrora orgulhosa e bela, a própria promessa da fertilidade, e agora nada lhe restava. O seu orgulho se fora, bem como as nuvens do céu. Agarrou um punhado de terra entre as mãos e sentiu ela se esfarelar entre seus dedos, se transformar naquele maldito pó fino que cobria tudo. Deixou-o escorrer de volta ao chão, e espalmando as duas mãos sobre o solo ressequido, se entregou. Desistiu por completo de todas suas pretensões, de todo seu orgulho, e chorou. A pele se agarrava àquela lágrima solitária que escorria avermelhada sobre ela, ultimo resquício de umidade que o pó ainda não devorara. Esta, por fim, rolou pelo seu rosto até o queixo, e mergulhou em direção aos braços abertos que a terra seca lhe estendia. Deixou-se cair, como a mesma lágrima, e ali caída alimentou a terra com suas lágrimas até adormecer.
E foi como num sonho que a lua foi se recolhendo entre duas nuvens até desaparecer, e o balé macabro do pó ao luar parou. Ele foi lentamente caindo sobre a terra, como esperando o que estava para acontecer, como o viajante que volta para o lar depois de anos de interminável vagar. A noite foi ficando cada vez mais escuras, e os poucos raios de luz que passavam entre as nuvens foram ficando cada vez menos e menores, até que a escuridão se fez total. E era como se a própria morte houvesse chegado com a suave brisa, escura e silênciosa como pantera. Mas era a vida quem chegava, e se precipitava das nuvens veloz e ansiosa para tomar de volta o que era seu, e se entregar aos seus súditos. Caiu em silêncio, mas não foi em silêncio que entregou suas dádivas. A primeira gota a reclamar a terra como sua o fez com estrondo, bem como suas irmãs, e juntas reclamaram posse de cada beco, ruela e jardim, até chegar ao pálacio.
Desceu dos céus com majestade, e a tomou nos seus braços fortes de tormenta. Com mil beijos suaves a acordou, e para sua delícia, foi molhando cada milímetro de sua pele, cada poro sedento de seus carinhos, percorrendo cada dobra de pele com seu toque gentil. Ela abriu seus braços e se entregou às suas carícias, deixando a água escorrer pelas suas pernas com vigor, e escorregar entre os dedos dos pés em direção à terra sedenta. Ficou ali sentada, sentindo seu toque firme e gentil massagear a sua carne. A água logo encharcou seus cabelos, e escorreu pelo pescoço até o peito. Se aninhou nos seus seios como uma criança, brincou um pouco e deslizou entre eles até o seu umbigo. Ela arrancou o vestido e deixou-se molhar inteira, em cada recôndito de seu corpo sedento. Com as mãos percorria seu corpo, ajudando a alcançar onde ainda não havia sido tocada por seus afagos. Brincaram e dançaram juntos a noite inteira, ali mesmo na terra agora molhada do jardim interno. Não houve pedaço do seu reino que não tivesse sido saciado em sua sede e se até então conhecera o que era a miséria, agora por fim conhecia o gozo, e nunca mais deixou de se entregar a ele, dançando nua no jardim que nunca mais ninguém viu, só ela e a chuva.
segunda-feira, 31 de março de 2008
Crônica de um dia de Sol
O sol reduzia as sombras a pequenas linhas na base dos objetos. Os pássaros desenhavam círculos no céu azul claro, por entre fiapos brancos de um ou outro rascunho de nuvem. Os metais brilhavam com reflexos cegantes. Seus olhos recém libertos não se acostumavam à claridade do dia magnífico com que fora presenteado no dia mais importante de sua vida. Falando sinceramente, preferia mil vezes os dias nublados e chuvosos de quando fugia e se escondia pelo meio do mato. Livre. Ou até mesmo aqueles dias negros quando seus olhos e tudo o mais jaziam prisioneiros e a escuridão era seu reino.
Agora estava tudo acabado. Só lhe restava aquele horrível dia ensolarado. Aquelas nuvens brancas e aquele maldito céu azul. Que o diabo carregasse toda aquela beleza! Que fosse tudo pro inferno! Fechou os olhos, recusando-se á paisagem. Queria de volta seus dias cinzentos, que o protegiam no monte, queria de volta aquela chuva que escondia seus passos aos cães, queria de volta sua liberdade! Abriu os olhos e contemplou aquelas armas enfileiradas, seus canos frios e escuros olhando-o como um bando de lobos famintos. E dentro de cada um deles, quieto e silencioso na sua espera, um projétil ansiava pelo seu banquete de carne.
Fechou os olhos novamente. Recusava-se a morrer prisioneiro em um dia de sol. Morreria, sim, mas nos seus termos e condições. Transportou-se no tempo e espaço, e sentiu a temperatura diminuir na sua pele, o ouvido zumbir com a mudança de pressão. Corria, como sempre corria naqueles dias, os pés leves e descalços para não deixar marcas, as botas penduradas ás costas, a barra da calça dobrada até perto do joelho. Ao longe ouvia o latido dos cães e a gritaria dos homens. Mas agora sorria com a mudança de temperatura. Sabia que um dia pararia de correr, por bem ou por mal, mas não hoje. Hoje os céus e o monte o protegiam. O vento, amigo dos livres, trazia as nuvens do mar até o pé dos montes, e com elas a chuva que o esconderia dos malditos cães mais uma vez.
O céu já estava totalmente escuro agora, com seus odres cheios de água. Ao longe, sentiu as nuvens brilharem e gritarem sua fidelidade por sobre as cabeças dos seus perseguidores. E assim, uma a uma, milhões de gotas começaram a cair. Sorriu ao sentir suas palpebras molharem. Abriu os braços e agradeceu pelo descanso. Respirou fundo, aquele perfume de terra molhada pela primeira vez em dias, a camisa molhada grudando no seu peito arfante. Recomeçou a correr, com um sorriso no rosto, não o pegariam hoje!
Um grito quebrou o silêncio, e ouviu o ruído sincronizado de uma dúzia de armas sendo engatilhadas. Manteve os olhos fechados e o sorriso, sentindo ainda a chuva escorrendo dos cabelos molhados. Não morreria num dia de sol! Morreria livre, como a chuva que cai. A um novo grito seguiu-se um estampido, e sentiu os pequenos vermes de metal e fogo dilacerando-lhe a carne. Caiu de joelhos, as mãos atadas às costas, e tombou. Sentiu na boca a terra seca antes do gosto de ferro. Lá em cima, o sol brilhou-lhe zombeteiro, uma última vez.
Agora estava tudo acabado. Só lhe restava aquele horrível dia ensolarado. Aquelas nuvens brancas e aquele maldito céu azul. Que o diabo carregasse toda aquela beleza! Que fosse tudo pro inferno! Fechou os olhos, recusando-se á paisagem. Queria de volta seus dias cinzentos, que o protegiam no monte, queria de volta aquela chuva que escondia seus passos aos cães, queria de volta sua liberdade! Abriu os olhos e contemplou aquelas armas enfileiradas, seus canos frios e escuros olhando-o como um bando de lobos famintos. E dentro de cada um deles, quieto e silencioso na sua espera, um projétil ansiava pelo seu banquete de carne.
Fechou os olhos novamente. Recusava-se a morrer prisioneiro em um dia de sol. Morreria, sim, mas nos seus termos e condições. Transportou-se no tempo e espaço, e sentiu a temperatura diminuir na sua pele, o ouvido zumbir com a mudança de pressão. Corria, como sempre corria naqueles dias, os pés leves e descalços para não deixar marcas, as botas penduradas ás costas, a barra da calça dobrada até perto do joelho. Ao longe ouvia o latido dos cães e a gritaria dos homens. Mas agora sorria com a mudança de temperatura. Sabia que um dia pararia de correr, por bem ou por mal, mas não hoje. Hoje os céus e o monte o protegiam. O vento, amigo dos livres, trazia as nuvens do mar até o pé dos montes, e com elas a chuva que o esconderia dos malditos cães mais uma vez.
O céu já estava totalmente escuro agora, com seus odres cheios de água. Ao longe, sentiu as nuvens brilharem e gritarem sua fidelidade por sobre as cabeças dos seus perseguidores. E assim, uma a uma, milhões de gotas começaram a cair. Sorriu ao sentir suas palpebras molharem. Abriu os braços e agradeceu pelo descanso. Respirou fundo, aquele perfume de terra molhada pela primeira vez em dias, a camisa molhada grudando no seu peito arfante. Recomeçou a correr, com um sorriso no rosto, não o pegariam hoje!
Um grito quebrou o silêncio, e ouviu o ruído sincronizado de uma dúzia de armas sendo engatilhadas. Manteve os olhos fechados e o sorriso, sentindo ainda a chuva escorrendo dos cabelos molhados. Não morreria num dia de sol! Morreria livre, como a chuva que cai. A um novo grito seguiu-se um estampido, e sentiu os pequenos vermes de metal e fogo dilacerando-lhe a carne. Caiu de joelhos, as mãos atadas às costas, e tombou. Sentiu na boca a terra seca antes do gosto de ferro. Lá em cima, o sol brilhou-lhe zombeteiro, uma última vez.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Can't take my eyes off you
Lá fora chove. A água cai do céu de uma forma que assustaria alguem que não conhecesse a chuva. Pingos grossos e fortes caem violentamente, ricocheteando no chão de asfalto e escorrendo pelas bordas da rua. As pessoas correm apressadas com seus guarda-chuvas pretos e coloridos, e suas capas e suas botas e em alguns casos, suas roupas molhadas. As portas se abrem de par em par, e mais uma figura encolhida entra no recinto, sacudindo inútil e esperançosamente a água dos ombros e braços, como se isso fosse deixa-lo mais seco. Por fim contenta-se. Levanta os olhos e procura sem resultados algum lugar vago. Senta-se então ao bar para esperar. Pede com um gesto uma bebida forte qualquer e ali fica, absorto em seus pensamentos. Nos seus ouvidos ecoa, cada vez mais presente, o som de uma canção familiar.
"You're just too good to be true..."
Ele ouve e solta o ar violentamente pelo nariz, mantendo a boca fechada, numa manifestação bem conhecida de ironia e sarcasmo. Seus olhos procuram no infinito uma reminiscência, uma imagem qualquer.
"Can't take my eyes off you..."
Teria sido diferente, se pergunta, caso não tivesse tirado os olhos dela? teria ela ficado se não fosse tão distante? Ou teria o destino conduzido tudo inevitavelmente para o mesmo fim? São perguntas que nunca serão respondidas, e ele tem consciência disso, mas não consegue evitar pensar nisso, os olhos fixos no resto amarelado ao fundo do copo.
"You'd be like heaven to touch, I wanna hold you so much..."
O bartender enche o copo de novo, complacente com aquela figura desconhecida, mas costumeira. Não o olha, mas sabe que tipo de pensamentos rolam nas ondas tempestuosas da memória. Já viu muitas vezes os mesmo olhos tristonhos e perdidos, em muitos semblantes, sempre a mesma dor, sangrando por dentro por motivos vários. E ele, pensa na pele macia que seus dedos acariciaram durante horas intermináveis, que o enlouquecia ponto de querer arrancar os olhos, para sentí-la apenas com o tato. Como se fosse uma maldita escrita em Braille. Lá fora a chuva cai. E a música corre como as memórias no seu pensamento.
"Pardon the way that I stare..."
As unhas curtas da mão direita arranham levemente o tampo do balcão, a esquerda no copo e os olhos em lugar algum. Ela costuma rir e perguntar o que tanto olhava. Ele sorria e respondia: "você". Ela pedia que parasse, ele concordava, mas logo estava olhando de novo. Perscrutando cada centímetro dela, cada onda e reflexo do cabelo, cada curva do seu rosto. Não podia parar, nunca conseguia, apenas ficava ali hipnotizado pela sua alegria.
"There's nothing else to compares..."
Realmente. Nada, nem ninguém podia ser comparado. Sua unicidade era uma verdade absoluta. Nada chegava perto de ser comparado. O resto do mundo parecia fosco e desfocado desde que a conhecia. O único brilho era ela, o centro do universo. Ninguém mais existia sequer. Só ela.
"The sight of you makes me weak..."
Riu. O mais próximo de uma palavra que dissera até então. Se alguma vez fora forte, foi com ela ao seu lado. Mas agora percebia o quanto tinha sido fraco. Cada vez que a via era como se todas suas defesas deixassem de existir. Uma cidade sem muros, uma casa sem cerca. Uma rosa sem redoma, apenas espinhos para proteger dos tigres.
"There are no words left to speak..."
Nunca pode explicar com palavras o que sentia. Tentava e tentava, mas não conseguia. As palavras secavam em sua boca, antes que as pudesse dizer. Teria que ser o melhor poeta de todos os tempos para encontrar uma forma de dizer o que corria dentro de sua alma.
"I love you baby, trust in me when I say..."
Como a amara. Nunca amara ninguém dessa forma. Quiçá nunca amara realmente até aquele dia quando pousou sua mão sobre a dela. Jamais saberia. O que é o amor? Agora nunca saberia. Esqueceria. Alguma coisa apertava e amargava no seu peito. Sentia-se rasgado por uma dor que nada curaria.
"Oh, pretty baby, now that I found you, stay
And let me love you, baby.
Let me love you..."
Repetiu o último verso, imaginando mil razões que não lhe permitiram a amar. Mas a verdade, se existe tal coisa, é que ela agora queria outro amor, não o dele. Colocou uma nota velha e amassada embaixo do copo, a música ainda ecoando em seus ouvidos cansados, e com os olhos cheios de ontem, abriu as portas de par em par e saiu.
Lá fora ainda chove.
"You're just too good to be true..."
Ele ouve e solta o ar violentamente pelo nariz, mantendo a boca fechada, numa manifestação bem conhecida de ironia e sarcasmo. Seus olhos procuram no infinito uma reminiscência, uma imagem qualquer.
"Can't take my eyes off you..."
Teria sido diferente, se pergunta, caso não tivesse tirado os olhos dela? teria ela ficado se não fosse tão distante? Ou teria o destino conduzido tudo inevitavelmente para o mesmo fim? São perguntas que nunca serão respondidas, e ele tem consciência disso, mas não consegue evitar pensar nisso, os olhos fixos no resto amarelado ao fundo do copo.
"You'd be like heaven to touch, I wanna hold you so much..."
O bartender enche o copo de novo, complacente com aquela figura desconhecida, mas costumeira. Não o olha, mas sabe que tipo de pensamentos rolam nas ondas tempestuosas da memória. Já viu muitas vezes os mesmo olhos tristonhos e perdidos, em muitos semblantes, sempre a mesma dor, sangrando por dentro por motivos vários. E ele, pensa na pele macia que seus dedos acariciaram durante horas intermináveis, que o enlouquecia ponto de querer arrancar os olhos, para sentí-la apenas com o tato. Como se fosse uma maldita escrita em Braille. Lá fora a chuva cai. E a música corre como as memórias no seu pensamento.
"Pardon the way that I stare..."
As unhas curtas da mão direita arranham levemente o tampo do balcão, a esquerda no copo e os olhos em lugar algum. Ela costuma rir e perguntar o que tanto olhava. Ele sorria e respondia: "você". Ela pedia que parasse, ele concordava, mas logo estava olhando de novo. Perscrutando cada centímetro dela, cada onda e reflexo do cabelo, cada curva do seu rosto. Não podia parar, nunca conseguia, apenas ficava ali hipnotizado pela sua alegria.
"There's nothing else to compares..."
Realmente. Nada, nem ninguém podia ser comparado. Sua unicidade era uma verdade absoluta. Nada chegava perto de ser comparado. O resto do mundo parecia fosco e desfocado desde que a conhecia. O único brilho era ela, o centro do universo. Ninguém mais existia sequer. Só ela.
"The sight of you makes me weak..."
Riu. O mais próximo de uma palavra que dissera até então. Se alguma vez fora forte, foi com ela ao seu lado. Mas agora percebia o quanto tinha sido fraco. Cada vez que a via era como se todas suas defesas deixassem de existir. Uma cidade sem muros, uma casa sem cerca. Uma rosa sem redoma, apenas espinhos para proteger dos tigres.
"There are no words left to speak..."
Nunca pode explicar com palavras o que sentia. Tentava e tentava, mas não conseguia. As palavras secavam em sua boca, antes que as pudesse dizer. Teria que ser o melhor poeta de todos os tempos para encontrar uma forma de dizer o que corria dentro de sua alma.
"I love you baby, trust in me when I say..."
Como a amara. Nunca amara ninguém dessa forma. Quiçá nunca amara realmente até aquele dia quando pousou sua mão sobre a dela. Jamais saberia. O que é o amor? Agora nunca saberia. Esqueceria. Alguma coisa apertava e amargava no seu peito. Sentia-se rasgado por uma dor que nada curaria.
"Oh, pretty baby, now that I found you, stay
And let me love you, baby.
Let me love you..."
Repetiu o último verso, imaginando mil razões que não lhe permitiram a amar. Mas a verdade, se existe tal coisa, é que ela agora queria outro amor, não o dele. Colocou uma nota velha e amassada embaixo do copo, a música ainda ecoando em seus ouvidos cansados, e com os olhos cheios de ontem, abriu as portas de par em par e saiu.
Lá fora ainda chove.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
CARTA PARA UMA AMIGA AO LONGE
As vezes olho algumas fotografias, pra me lembrar que você é real. O retrato de sempre acaba te prendendo numa moldura, engessando quem você é. Por alguns momentos parece que é só isso. Só o sorriso maroto com o mar ao fundo.
Então quando vejo as fotografias me lembro um pouco mais de quem és. Pequenos detalhes, um pé sujo aqui, um barril de chop ali, e quase sempre o sorriso. Teu desprendimento e a importância que as pequenas lembranças parecem ter para ti, podem gritar em antagonismo, mas ali, naquele pedacinho de luz congelada, estão em harmonia.
As paisagens mais lindas são teu cenário, e eu não consigo saboreá-las, porque pra mim são sempre tuas fotografias, e só você existe nelas. A única estrela de uma estória fantástica. E pra mim só há a areia porque teu pé a pisa, só existe o vento porque teu cabelo voa, toda luz vem dos teus olhos, todo personagem é você e o que sinto ao longe.
Quando vejo essas fotografias tenho vontade de te sentar ao pé do mar e te falar de coisas belas, te contar do amor e da flor, te levar pra ver a nuvem, o brocóli e a neve, os olhos tristes de um cão que espera o amigo e o sorriso do cego que vê tudo isso melhor que nós. Quero te mostrar como o mundo pode ser lindo e como toda dor pode ser poesia. Tenho vontade de molhar meus pés nessa areia que carrega teu peso, sentir o vento que massageia teus cabelos, ao teu lado, mãos dadas em silêncio e quietude.
Quando o tempo torna a distância tão presente, são esses detalhes que me fazem sentir te menos ausente. Acolá teus cabelos molhados. Teus cabelos. Sua imagem me lembra seu cheiro. O cheiro me lembra teus abraços, e assim vou, me perdendo em fotografias, teu sorriso assassinando minha dor, sangrando minha saudade pra que eu possa viver mais um dia, mais algumas horas sem acariciar tua pele, teu rosto, teu cabelo, até que chegue a noite novamente, e eu me deite a olhar tuas fotografias.
Então quando vejo as fotografias me lembro um pouco mais de quem és. Pequenos detalhes, um pé sujo aqui, um barril de chop ali, e quase sempre o sorriso. Teu desprendimento e a importância que as pequenas lembranças parecem ter para ti, podem gritar em antagonismo, mas ali, naquele pedacinho de luz congelada, estão em harmonia.
As paisagens mais lindas são teu cenário, e eu não consigo saboreá-las, porque pra mim são sempre tuas fotografias, e só você existe nelas. A única estrela de uma estória fantástica. E pra mim só há a areia porque teu pé a pisa, só existe o vento porque teu cabelo voa, toda luz vem dos teus olhos, todo personagem é você e o que sinto ao longe.
Quando vejo essas fotografias tenho vontade de te sentar ao pé do mar e te falar de coisas belas, te contar do amor e da flor, te levar pra ver a nuvem, o brocóli e a neve, os olhos tristes de um cão que espera o amigo e o sorriso do cego que vê tudo isso melhor que nós. Quero te mostrar como o mundo pode ser lindo e como toda dor pode ser poesia. Tenho vontade de molhar meus pés nessa areia que carrega teu peso, sentir o vento que massageia teus cabelos, ao teu lado, mãos dadas em silêncio e quietude.
Quando o tempo torna a distância tão presente, são esses detalhes que me fazem sentir te menos ausente. Acolá teus cabelos molhados. Teus cabelos. Sua imagem me lembra seu cheiro. O cheiro me lembra teus abraços, e assim vou, me perdendo em fotografias, teu sorriso assassinando minha dor, sangrando minha saudade pra que eu possa viver mais um dia, mais algumas horas sem acariciar tua pele, teu rosto, teu cabelo, até que chegue a noite novamente, e eu me deite a olhar tuas fotografias.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
REENCONTRO IMAGINÁRIO AO SOM DO NOTURNO EM MI BEMOL, OPUS 9, N°2, DE CHOPIN
ler ao som do Noturno em Mi bemol de Chopin. baixar aqui.
Chopin - Nocturne
As mãos caem, suaves e determinadas sobre as teclas do piano, enquanto nossos olhos se perdem no tempo. E assim como elas as nossas mãos também se juntam. Puxo-te em direção a mim, e nos abraçamos. Primeiro forte e depois mais suave, como a chuva que cai de repente. Minha mão corre pela tua cintura e as tuas pelas minhas costas. Você aninha tua cabeça no meu peito e fecha os olhos, e vamos assim, num suave balanço ao som da música, rodando pelo quarto que se transformou em salão. Você veste agora o vestido mais lindo e eu minha farda de gala. Nossos pés não sentem o chão, o atrito deixou de existir, só restamos você, eu e a música. Os convidados riem e aplaudem a graça da sua princesa, mas não os ouço, porque tua mão está dentro da minha feito um passarinho que caiu do ninho.
Você roda e ri, iluminando tudo ao seu redor com tua luz, com teu sorriso. Agora todos dançam ao nosso redor, as estrelas, os cometas, os mundos infinitos, ao som do piano, acompanhando os nossos passos pela galáxia. E então não existe mais nada, o universo inteiro somos nós e a música. Toda a energia concentrada num ponto, eu e você. E nós alheios a tudo isso, rodopiando pelo vazio. Fecho meus olhos e sinto teu coração bater no meu peito, apagando toda dor que a saudade um dia me trouxe.
Só existe no meu ser este momento, como se minha vida inteira houvesse vivido pra isso. Todos os meus erros , meus pecados, minhas pequenas mentiras, tudo conduziu a este momento,onde não existe mais dor nem sofrimento, só você, e eu, e a música.
E agora, somos só duas luzes vagando pelo infinito, uma só chama pra quem olhar de longe, um só coração pra quem ouvir de perto. Duas almas unidas pela música e por algo mais que ninguém pode explicar. Uma estrela. A única estrela. A estrela que deu origem a todas as outras. Viajando pelo cosmos, iluminando toda escuridão com nossa luz. Enchendo o espaço com o nosso calor. Nada mais existe, só nós e o nosso amor, a única estrela, a única luz. Eu, você, e a música. Seus olhos fechados ainda, sua respiração calma e suave, encostada no meu peito, num momento de ternura infinita, esperando que dure pra sempre, o que já vai acabar.
Pausa.
A música acabou. Abro os olhos e ainda consigo ver os teus. Num último relance, antes de tudo voltar ao que era, e à solidão.
Chopin - Nocturne
As mãos caem, suaves e determinadas sobre as teclas do piano, enquanto nossos olhos se perdem no tempo. E assim como elas as nossas mãos também se juntam. Puxo-te em direção a mim, e nos abraçamos. Primeiro forte e depois mais suave, como a chuva que cai de repente. Minha mão corre pela tua cintura e as tuas pelas minhas costas. Você aninha tua cabeça no meu peito e fecha os olhos, e vamos assim, num suave balanço ao som da música, rodando pelo quarto que se transformou em salão. Você veste agora o vestido mais lindo e eu minha farda de gala. Nossos pés não sentem o chão, o atrito deixou de existir, só restamos você, eu e a música. Os convidados riem e aplaudem a graça da sua princesa, mas não os ouço, porque tua mão está dentro da minha feito um passarinho que caiu do ninho.
Você roda e ri, iluminando tudo ao seu redor com tua luz, com teu sorriso. Agora todos dançam ao nosso redor, as estrelas, os cometas, os mundos infinitos, ao som do piano, acompanhando os nossos passos pela galáxia. E então não existe mais nada, o universo inteiro somos nós e a música. Toda a energia concentrada num ponto, eu e você. E nós alheios a tudo isso, rodopiando pelo vazio. Fecho meus olhos e sinto teu coração bater no meu peito, apagando toda dor que a saudade um dia me trouxe.
Só existe no meu ser este momento, como se minha vida inteira houvesse vivido pra isso. Todos os meus erros , meus pecados, minhas pequenas mentiras, tudo conduziu a este momento,onde não existe mais dor nem sofrimento, só você, e eu, e a música.
E agora, somos só duas luzes vagando pelo infinito, uma só chama pra quem olhar de longe, um só coração pra quem ouvir de perto. Duas almas unidas pela música e por algo mais que ninguém pode explicar. Uma estrela. A única estrela. A estrela que deu origem a todas as outras. Viajando pelo cosmos, iluminando toda escuridão com nossa luz. Enchendo o espaço com o nosso calor. Nada mais existe, só nós e o nosso amor, a única estrela, a única luz. Eu, você, e a música. Seus olhos fechados ainda, sua respiração calma e suave, encostada no meu peito, num momento de ternura infinita, esperando que dure pra sempre, o que já vai acabar.
Pausa.
A música acabou. Abro os olhos e ainda consigo ver os teus. Num último relance, antes de tudo voltar ao que era, e à solidão.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Quero...
Quero correr meus dedos pela tua porta, sentir o nó dos dedos batendo de leve na madeira, cada golpe com seu som e eco. Ouvir tua voz pedindo pra esperar, sem saber quem está ali fora aguardando. Prestar atenção aos som dos teus passos se arrastando apressados, calçando um chinelo fujão, enquanto meu coração ansioso dispara. Respirar fundo, me apoiar no batente e me preparar para deliciarme com o teu sorriso surpreso ao puxar a maçaneta e me ver parado á tua frente.
Quero entrar sem pedir licença, recuar-te sem toques, até estarmos no teu lugar. Só então levantar minha mão em direção ao teu rosto. Estender os meus mudos dedos um a um, singrando o silêncio eterno do momento, disfrutando a distância até tua face, a eletricidade pulsando entre eles no instante em que tocam tua pele. Correm lentos em direção ao teu cabelo, acariciando te suavemente por trás da orelha, puxando-nos levemente em direção ao outro. Teus olhos abertos, engolindo a luz refletida pelo meu rosto, enquanto o mundo congela, o segundo entre nossos lábios contendo agora milênios e eras. De pronto teus cílios se negam a ficar separados e se juntam como nós, pele contra pele.
Quero umedecer tua boca lentamente, morder cada pedacinho do teu lábio até o outro ficar com ciúme, meu braço correndo pela tua cintura, te prendendo como uma serpente, uma mão nas tuas costas e a outra decifrando teu rosto. Te apoiar na parede e me perder no teu abraço. beijar teus olhos, teu nariz, tua testa. Beijar cada pedaço do teu rosto, sem descansar, apenas parar de tempo em tempo para admirar teus olhos fechados.
Por fim, te deitar suavemente na tua cama, e juntos desfrutar a eternidade.
Quero entrar sem pedir licença, recuar-te sem toques, até estarmos no teu lugar. Só então levantar minha mão em direção ao teu rosto. Estender os meus mudos dedos um a um, singrando o silêncio eterno do momento, disfrutando a distância até tua face, a eletricidade pulsando entre eles no instante em que tocam tua pele. Correm lentos em direção ao teu cabelo, acariciando te suavemente por trás da orelha, puxando-nos levemente em direção ao outro. Teus olhos abertos, engolindo a luz refletida pelo meu rosto, enquanto o mundo congela, o segundo entre nossos lábios contendo agora milênios e eras. De pronto teus cílios se negam a ficar separados e se juntam como nós, pele contra pele.
Quero umedecer tua boca lentamente, morder cada pedacinho do teu lábio até o outro ficar com ciúme, meu braço correndo pela tua cintura, te prendendo como uma serpente, uma mão nas tuas costas e a outra decifrando teu rosto. Te apoiar na parede e me perder no teu abraço. beijar teus olhos, teu nariz, tua testa. Beijar cada pedaço do teu rosto, sem descansar, apenas parar de tempo em tempo para admirar teus olhos fechados.
Por fim, te deitar suavemente na tua cama, e juntos desfrutar a eternidade.
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